Entrevista: The Killers

Brandon Flowers, líder da banda The Killers, nos recebeu para um papo sobre processo criativo e religião 

Divulgação


No dia 29 de março, o The Killers levará o resultado de sua trajetória épica – uma banda indie que se tornou multimilionária – ao Jockey Club, de São Paulo. O quarteto de Las Vegas é a principal atração do primeiro dia do festival Lollapalooza 2013 (leia mais aqui sobre o festival). A turnê que passa agora pelo Brasil, já aterrisou na Escócia e na Inglaterra, só para citar alguns dos muitos países que percorreu. Fomos ao backstage da apresentação em Glasgow, quatro meses atrás, para espiar o ritual do quarteto antes de subir ao palco e para uma conversa com o vocalista Brandon Flowers.

Na ocasião, havia alguns problemas nos bastidores do show. Para começar, todas as latas de Coca-Cola eram de tamanho normal, e não em miniatura, como as dos aviões, exigidas pelos músicos. “Tamanho menor, tamanho menor”, gritava o produtor-assistente da turnê para um garçom. Além disso, o pano trazido para proteger a mesa de pingue-pongue da banda no transporte não era grosso o suficiente – o tipo de problema que apenas superastros que ainda mantêm um pé na adolescência têm. Flowers estava trancado em um camarim; o baterista Ronnie Vannucci afirmava estar com uma conjuntivite grave (“é a nova DST”, brincou ele); e o guitarrista Dave Keuning estava, bem... um pouco deprimido. “Glasgow é tão fria e cinza”, comentou, com razão.

Não se esperaria que tudo corresse totalmente bem no primeiro show de uma turnê mundial, mas, nessa noite havia muita coisa em jogo. Uma das bandas de rock mais bem-sucedidas da última década estava de volta após um recesso de um ano, em que Flowers, Vannucci e o baixista Mark Stoermer tocaram projetos solo. O retorno deles aos palcos do Reino Unido aconteceu no SECC, uma casa de shows em uma espécie de galpão em Glasgow – mas, algumas semanas depois, o grupo apareceu em Londres, sua segunda casa, a cidade que eles amam e que os tornou famosos.

Se eles estavam prontos para o palco, tudo dependia de Flowers e, quando o encontramos no camarim, parecia que estava pronto mesmo para uma noite tranquila na frente da TV. Seu agasalho era uns dois números maior. Seu cabelo estava armado; seus olhos, tristes como os de um cãozinho abandonado. Perguntamos se a lesão recorrente no ombro o estava incomodando. “Está igual”, afirmou, impassível. Uma ponta de dúvida começou a surgir. Aquele homem estava realmente preparado para levar a multidão à loucura em menos de duas horas?

No álbum de estreia dos Killers, o platinado Hot Fuss, de 2004, a banda pegou emprestados o maneirismo do pós-punk britânico e a androginia de Bowie, mas, no último disco, Battle Born, Flowers viaja ao território de Bruce Springsteen por meio dos romances de John Steinbeck. Suas músicas sugerem que o Sonho Americano está desmoronando e que apenas o amor jovem pode salvá-lo. Flowers está casado desde 2005. De onde vêm, então, as histórias de amor juvenil?

“Apenas tento fazer o melhor”, afirmou, secamente. “Mesmo quando eu era jovem, as músicas tinham histórias específicas, e simplesmente tento melhorar nisso. Absorvo o que está acontecendo e faço observações, e faço o melhor que posso para capturar algo. E tenho quatro minutos”, explicou, com aquele sorriso de dar pena. “Então, é meio difícil às vezes.”

Ele ainda mora perto da região decadente de Las Vegas. Se há uma parte dele que se desespera com a situação dos EUA? “Não acho que seja só nos Estados Unidos. Acho que é em todo lugar! Mas não tenho...”, ele hesitou. “Não estou aqui para dar sermão”, disse, encerrando o assunto.

Flowers é mórmon praticante, o que (juntamente com o ótimo cabelo) ele compartilha com o ex-candidato à presidência dos Estados Unidos, Mitt Romney. Mas, diferentemente de Romney, ele se esforça para não transformar sua fama em plataforma para suas crenças. “Acho que a religião mórmon ainda é bastante estranha às pessoas”, admitiu. “E, portanto, quando há alguém sob os holofotes, como foi com Mitt Romney, acontece um burburinho em torno [da religião].”

“Uma das coisas a respeito da minha igreja é que somos muito ligados à família, cresci com isso e agora estou aplicando à minha família. A maioria das igrejas é assim, mas acho que temos uma certa ênfase nisso.” Ele talvez ache que o conceito de família está em crise. “Acho que está provado que, a não ser que as pessoas se sentem ao redor da mesa de jantar com a família...”. Ele procurava não julgar. “Acho que isso acontece cada vez menos. Me parece, eu não sei... Não sei como terminar a frase.”

Um tio de Flowers, Johnny, era usuário de cocaína e tentou (sem sucesso) atirar em seus próprios testículos na banheira. Aparentemente, esse é o tipo de drama familiar que o cantor acredita ser evitável. Ele afirma não beber nem usar drogas, embora tome bebida energética antes dos shows. “O Red Bull chega cerca de 10 minutos antes de eu entrar. É o início da transformação. Faço isso há tanto tempo que meu corpo já sabe que essa é a deixa.”

Mas não foi preciso Red Bull para se preparar para uma apresentação na TV sueca, recentemente. Flowers e The Killers eram convidados de um talk show, juntamente com Björn, do Abba, a apresentadora de TV Ulrika Jonsson e o cientista e escritor Richard Dawkins. Ateu inverterado, Dawkins afirmou no ar que O Livro de Mórmon era uma “obra de charlatanismo”. “Vejo os dois lados”, afirmou Flowers, com objetividade. “Ele enxerga [a religião] como uma coisa perigosa para pessoas que são fanáticas, sabe... Não serei eu a convencer Richard Dawkins de que há um deus. Mas tentei pelo menos responder a algumas perguntas e falar um pouco mais. Mas, sim, ele não foi bacana.”

Flowers é apenas um cara legal? Ou ele tem medo da hipocrisia, não querendo julgar os outros para não ser julgado pelo glamour meio caído do show dos Killers? De qualquer forma, naquele dia ele tinha até 20h45, horário em que subiria ao palco, para encontrar sua voz. A banda estava zanzando na coxia, com expressões entediadas. Vannucci decidiu trocar a cueca – ele odeia suar nas partes íntimas. Keuning jogava tênis de mesa sem entusiamo. Quando Flowers apareceu, vestindo couro, havia algo novo em seus olhos, irritados e nervosos.

E tudo mudou. Ao subir no palco, Flowers estava elétrico. “Quanto tempo, Glasgow”, ele roncou ao microfone. De repente, o galpão não parecia mais uma loja de materiais de construção. Se os Killers estavam superentediados e pensando em pingue-pongue, isso não apareceu na apresentação. Eles continuam com tudo e devem fazer uma performance matadora em São Paulo, no Lollapalloza. 

Escrito por Jonny Ensall
 

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