Kanye West - Yeezus

'Yeezus', o esperado sexto álbum do rapper, decepciona

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Kanye West


Começa na faculdade. Ele é um orador ingênuo, idealista e excepcionalmente talentoso. A seguir, está em Nova York, trabalhando em uma fábrica de tintas que aperfeiçoou a fórmula do verniz. Aí ele se machuca ao ficar preso em uma máquina. Depois é levado para o mundo da elite, onde é seduzido por uma mulher branca. Seus chefes pedem que ele faça um discurso, inicie um movimento, mas ele vai um pouco longe demais, fica muito metido e arrogante. Por fim, desilude-se. Vira underground, mora em um quarto com poucos móveis, tocando sem parar um velho disco de soul.

Este é, bem a grosso modo, o enredo de O Homem Invisível, romance de 1952 do escritor Ralph Ellison. Dá para perceber qualquer semelhança com a carreira de Kanye West? A discografia do rapper comerça com The College Dropout passa pelo engenhoso e colorido Graduation e pelo perturbado e mecânico 808s & Heartbreak, até chegar a este último e recém-lançado álbum, Yeezus, irreverente e raivoso.

Eu sei que é insuportável quando um crítico compara um disco a um romance clássico. É uma comparação tênue; Yeezus não se iguala a uma das grandes obras da literatura americana. Mas a persona pop de Kanye West me arrebata como um personagem que Ellison inventaria se vivesse nos dias de hoje. West está intoxicado pelo poder de sua voz, mas cada vez mais incerto de como lidar com ela. Há uma diferença essencial entre O Homem Invisível e Kanye West. O protagonista de Ellison afirma ser invisível porque “as pessoas se recusam” a vê-lo; o rapper está se apagando porque se recusa a nos deixar vê-lo.

É difícil acreditar que um megalomaníaco frequentaria o estúdio na companhia de um cara indie e pé no chão como Justin Vernon, do Bon Iver (que participa de duas faixas); ou que permitiria que sua obra fosse revisada e modificada de última hora por um manipulador como Rick Rubin; ou que ficasse de antenas ligadas para localizar colaboradores como Evian Christ (na música ‘I’m in It’) e TNGHT (em ‘Blood on the Leaves’).

Idiotas presunçosos geralmente não se cercam de tamanho poder intelectual. Kanye é um apropriador astuto. Seu maior talento está em misturar, de forma coerente, elementos incompatíveis como Daft Punk, Vernon, Chief Keef, Nina Simone, TNGHT e os samples de soul que são sua marca registrada. Nesse sentido, apesar de já ter se comparado a Michael Jackson, o ícone pop dos anos 1980 que mais lembra West é Madonna.

Infelizmente, Yeezus é seu American Life, o criticado disco de 2003 da pop star. Se quiser uma demonstração das aguçadas habilidades publicitárias de West, repare como ele tem sido bem sucedido em convencer os críticos de que Yeezus é um tipo de declaração punk. O produtor-executivo Rubin tem vomitado esse bordão para a mídia. Claro, o disco certamente começa de forma vigorosa.

O alarme agudo da música de abertura, ‘On Sight’, atinge altos decibéis. ‘Black Skinhead’, de longe a melhor faixa, transforma a batida glam do compositor Gary Glitter em marcha de protesto. O baixo profundo e os solavancos de ‘I Am a God’ têm um quê brincalhão. Esse forte conjunto, produzido pelo Daft Punk nos moldes de Human After All (álbum de 2005 do duo), leva a ‘New Slaves’, música que começa brilhante até colapsar de forma decepcionante. Kanye costumava elaborar narrativas cativantes de sua vida e suas lutas. Hoje, fala do seu pau. E muito. A maior decepção de Yeezus é que, tirando as poucas críticas ao sistema corporativo e ao consumismo, o disco trata majoritariamente de seu pênis.

Ghostwriters dominam os créditos de Yeezus, em uma ladainha que destrói a ideia de o disco ser cru ou espontâneo. Confira a capa. As polêmicas à la Rage Against the Machine da letra de ‘Black Skinhead’ são creditadas a Lupe Fiasco. O nome Rhymefest aparece em ‘On Sight’ e ‘New Slaves’. Homens invisíveis escrevendo letras para um homem invisível. Este CD vem embalado no nada, em plástico transparente. É um álbum invisível.

Escrito por Brent DiCrescenzo
 

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