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Arcade Fire: entrevista

Atração do segundo dia do Lollapalooza, a banda canadense fez mudanças radicais em 2013 com o álbum 'Reflektor'

Qual a ideia por trás da inspiração na disco?
Queríamos traduzir o espírito do que vivenciamos em um carnaval no Haiti para algo que as pessoas em casa pudessem entender. Foi a primeira vez que gostei de dançar como parte de uma multidão.

E você dança bem?
Não acho que isso importe – o importante é você se sentir impulsionado pela música. Não sou o tipo de pessoa que consegue dançar ao som de uma música de que não gosto. No colegial, se tocasse New Order, Depeche Mode ou algo do tipo, eu pulava da cadeira. Mas a ideia de dançar ao som de uma música house ruim é algo que nunca consegui entender. Ecstasy deve ajudar – mas nunca tomei.

Por que não?
Nunca precisei desse tipo de ajuda. Prefiro ficar animado com uma coisa ótima a usar drogas para fazer com que alguma coisa ruim pareça ótima. Existe uma grande diferença entre ir para Ibiza e ver as pessoas usando drogas e tentando dormir umas com as outras, e estar no Haiti, onde tem um percussionista de vodu tocando e as pessoas chegam, dançam até três da manhã e depois vão para o mar.

James Murphy [produtor de Reflektor] foi muito inspirado pela cena disco dos anos 1970 em Nova York. Isso o influenciou?
Sim. Mas Montreal nos anos 1970 era outro point da música disco. David Bowie e Grace Jones iam para lá. Tinha uma balada em Montreal chamada Limelight. As pessoas faziam filas que dobravam o quarteirão, na esperança de entrar. E isso foi uma inspiração.

E todo o movimento “a disco é uma droga”? Por que as pessoas odiavam tanto o gênero, nos anos 1970 e 80?
Acho que é porque música disco é essa coisa gay, de contracultura. Tem uma música no [CD do Arcade Fire] Reflektor chamada “We Exist” que é sobre um garoto gay falando com o pai [“Pai, é verdade, sou diferente de você. Mas me explica por que me tratam desse jeito?”]. Em culturas dominantes, existe o que é normal, e todo o resto é anormal. É uma das tendências mais sombrias da humanidade, pensar que todo mundo deveria se encaixar num molde.

Você e Murphy se deram bem logo de cara?
Tudo que havíamos lido fazia com que um achasse o outro irritante. Mas temos muita coisa em comum. Quando um viu o outro tocar pela primeira vez, nós dois falamos “Ei, adorei sua banda!”. E ele tem uma barba muito legal.

Pensa em deixar a barba crescer também?
Não sou um bom hipster – se deixo o bigode crescer, parece que estou com uma sujeira no rosto.

O que “hipster” realmente significa?
O termo “hippy” foi cunhado pelos beatniks porque, nos anos 1960, hippy queria dizer “pequeno hipster”. “Hipster” não significa absolutamente nada agora. Se acha que nossa banda é de hipsters, então... Tanto faz. De fato gosto de um bom café, seja lá o que isso faz de mim.

Vocês são hipsters o bastante para atrair um monte de estrelas para o clipe de “Here Comes the Night Time”. Como foi isso?
James Franco, por acaso, estava na área. A parte do Michael Cera foi engraçada [Cera, conhecido pelo filme Superbad, interpreta um garçom espanhol ressentido], porque liguei e ele ficou tipo “Bom, falo espanhol muito bem”. E a cena se escreveu sozinha: Michael Cera falando espanhol – vai ser engraçado.

O que você aprendeu sobre o mundo recentemente?
Uma das coisas mais poderosas que já vi foi no Haiti. Depois do terremoto, não tinha eletricidade – todo lugar tinha blecaute. Havia pessoas nas ruas, com todos os seus pertences, e mulheres alegres cantando músicas de louvor por estarem vivas. Continuo aprendendo muito com o Haiti e os haitianos sobre como ser grato pelo que se tem.

E você virou pai este ano. Você se preocupa com seu filho?
Ele só tem seis meses. Ainda não sabe quando uma coisa é “assustadora”. Às vezes, no entanto, você consegue ver nos olhos dele que ele está tipo “Uau!” – totalmente espantando com alguma coisa que não consegue reconhecer. Mas acho que esse tipo de sensação é parte do processo de crescer.

Arcade Fire toca do Lollapalooza em 6 de abril.


Escrito por Jonny Ensall
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