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Lemmy Kilmister: entrevista

O veterano do rock, Lemmy Kilmister, fundador do Motörhead, fala sobre a lenda que gira em torno de seu nome

Quando nos disseram que íamos entrevistar Lemmy, do Motörhead, ficamos muito animados. Muito, muito animados. Afinal, ele é o cara que levava a guitarra para a escola só porque achava que assim despertaria o interesse das meninas (e despertava), mas que, mesmo assim, foi roadie de Jimi Hendrix, tocou no Hawkwind e fundou o Motörhead, uma das bandas de rock ’n’ roll mais amadas do mundo. Mas, sinceramente, o verdadeiro motivo para a nossa animação era o próprio Lemmy. Um homem em torno do qual anedotas, boatos e mitos escandalosos se amontoam como uma nuvem de gafanhotos, ele passou a maior parte dos últimos 40 anos sendo alvo de uma mídia fascinada por seus casos amorosos, pela sua relação com a bebida e por sua libertinagem desenfreada.

Lemmy — cujo nome verdadeiro é Ian Fraser Kilmister — é mais na dele e lacônico do que esperávamos. Será que conseguimos enfurecê-lo com, por exemplo, James Blunt, o medíocre anti-Lemmy? Infelizmente não. "Não ouço muito as músicas dele", diz Lemmy, encolhendo os ombros. "Imagino que esteja fazendo o melhor que pode. Ele não é muito do rock, é?"

Droga. Mas quando perguntamos se o rock de hoje é chato, Lemmy ganha velocidade. "É sempre mais do mesmo. É hora de aparecer outro Sex Pistols, eu acho. Hora de alguém dar um chute na bunda da música. Seria bom, depois dessa merda toda de hip-hop." E o que o hip-hop tem de tão ruim? "É música privada de qualquer merda de talento. São palavras sendo ditas em cima de uma batida copiada de alguém. Eu adoro música negra — cresci com ela — e, se você me disser que o legado do blues, do rock ’n’ roll e da (gravadoras) Stax e da Motown é o hip-hop, vou ter que discordar de você."

De sua parte, Lemmy acredita que o Motörhead — uma banda que ele sempre descreveu como de rock ’n’ roll, e não metal — mantém a chama acesa. "Ainda não se perdeu — muita gente vai ver nossos shows. A gente já não vende tantos discos, mas vende muitos ingressos. Temos muitos fãs de 14 ou 15 anos de idade."

Nos perguntamos se — independentemente da atemporalidade de sucessos como "Ace of spades" — essa molecada tem um mínimo interesse em Lemmy, a lenda, o ícone autodepreciativo que está em toda parte, de comerciais de Kit Kat a Beavis e Butthead. Ele até aparece como "Kill Master" (uma brincadeira com seu sobrenome, Kilmister) no game de heavy metal Brütal Legend.

O mito perturba Lemmy? "Eu acho engraçado", ele ri. "Quer dizer, tem até um bonequinho meu. Mas é só publicidade, sabe?" Mesmo assim, achamos que segurar um boneco de plástico de si mesmo deve ser estranho. "Mas você não está corrompendo sua alma em público há anos como nós", diz Lemmy desajeitadamente. "Então tudo bem, eu acho."

É uma boa explicação, mas a banda não é a única "corrompendo sua alma" — os tabloides e os fãs histéricos têm sua porção de culta também. Mas até Lemmy diz que a linha entre o homem e o mito é tênue. "A imagem não é cem por cento correta — ninguém pode viver aquela vida o tempo todo. Mas, mesmo assim, o que você vê é a verdade, mais ou menos: eu uso as mesmas roupas no palco e na vida real, e não grito quando anuncio as músicas. Sou bastante razoável."

O que manteve Lemmy e Keith Richards inteiros, apesar do estilo de vida rock 'n' roll? "Sorte. Pura sorte. As pessoas morrem porque fazem muito alguma coisa." Então ele é um homem moderado? "Eu acho que sim", ele. "Não fui sempre, mas agora sou." 

Escrito por James Wilkinson
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