Time Out São Paulo

Nó na Orelha

 Rap, soul, reggae e samba nesse álbum paulistano de hip hop definitivo

Combinando ritmos diaspóricos que revelam sua infância na favela e os diversos instrumentos multiculturais encontrados em uma mega-cidade como São Paulo, o nativo Criolo compôs o que poderia ser o álbum paulistano de hip hop definitivo. Nó Na Orelha divide-se igualmente entre rap, soul, reggae e samba e leva o ouvinte da periferia empoeirada ao centro encardido e de volta ao começo, enraizando-o em uma cidade específica, mas cercando-o em uma cultura urbana ampla e sem fronteiras.
Com ritmo de funk e pitadas de afrobeat, “Bogotá” abre o álbum e convida a participar de uma jornada do tráfico transamazônica com Criolo. Puxando para o jazz, “Mariô” ecoa sons de Salvador e Dakar, com seus refrões vai-e-vem e o som da cuíca e do baixo vertical.  As faixas com nuances do Brooklyn“Grajauex” e “Lion Man”, com sabores orientais, são as únicas hardcore que fazem balançar a cabeça no álbum, relembrando as raízes de Criolo como um cronista da vida na rua da Zona Sul. E mesmo a faixa final, “Linha de Frente”, um verdadeiro samba de Sampa, fala da dura vida na cidade, com nenhuma alusão à Copacabana. Seja como cantor ou como rapper, Criolo não é nenhum Barry White, mas sua voz é cheia de alma, ondulando com emoção, tanto em baladas sugestivamente andróginas, como “Freguês da Meia Noite” quanto na solene “Não Existe Amor em SP”, com sua letra que assombra: “Aqui ninguém vai pro céu”. Amém.

Escrito por Time Out São Paulo editors
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