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As Fotografias do Vale do Rio Omo

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As Fotografias do Vale do Rio Omo

Data 25 Mai 2013-25 Ago 2013

Horário de abertura Ter. a dom., 10h-18h.

Avenida Pedro Álvares Cabral, Portão 3 Parque do Ibirapuera, Ibirapuera


Às margens barrentas do rio Omo, na fronteira da Etiópia, Quênia e o atual Sudão do Sul, figuras negras e esguias podem ser vistas enfeitadas por acessórios e pinturas impressionantes. Envoltos por pedaços de galhos, frutas amadurecidas e vagens verdes ou secas, seus corpos chegam a confundir-se com a selvagem paisagem local, formada por arbustos e florestas, em uma interação mimética.

Quem adentra a exposição As Fotografias do Vale do Rio Omo, em cartaz até o dia 25/8, no Museu Afro Brasil no Parque do Ibirapuera, tem a sensação de estar em um território virgem habitado por esses seres tão mágicos e poderosos como os criados pelo cineasta James Cameron no filme Avatar (2009).

São 63 reproduções em grande formato de jovens dos povos Surma e Mursi, no difícil exercício de perpetuação de uma prática milenar, talvez tão antiga como a presença do homem em uma região onde foram descobertos vestígios de hominídeos que ali viveram há 250 mil anos.

Hans Silvester/Divulgação

A caracterização das tribos lembra os seres mágicos do filme ‘Avatar’

O fotógrafo alemão Hans Silvester, 74 anos, responsável pela criação de crônicas fotográficas em paisagens remotas de diversos países do mundo, como Peru, Índia e Grécia, entre outros, clicou, entre 2003 e 2006, esses personagens e seus corpos pintados com pastas feitas a partir de pigmentos provenientes de rochas, terra e outros minerais encontrados às margens do rio.

Adornos compostos a partir de galhos de árvores, frutas, vagens e penas de animais completam o figurino, cuja criatividade poderia ter causado inveja e frisson entre estilistas de Milão à Nova York, quando as fotografias apareceram no livro Ethiopia: Peoples of the Omo Valley, publicado pela editora britânica Harry N. Abrams, em 2007.

“Essas pinturas corporais são completamente livres de modelos e elas nunca se repetem; não há um sistema figurativo. Cada uma é extraordinariamente nova. A técnica e as habilidades das decorações, com suas variações infinitas, são aprendidas quando eles ainda são muito jovens, com as mães pintando seus bebês” explica Silvester no texto introdutório da exposição.

Hans Silvester/Divulgação
Criança usa uma elaborada decoração tribal

São, no entanto, os jovens os mais entusiastas. “Eles têm tanto sobre o que fantasiar que não precisam de inspiração proveniente do mundo exterior”, diz o fotógrafo.

A maior parte das tribos não tem acesso a espelhos, o que faz com que as pinturas só ganhem significado no olhar do outro. “Eu nunca mostrei as fotos depois de tirá-las porque se eles vissem o resultado, mudariam a maneira de fazer os enfeites. Uma foto teria o mesmo efeito que um espelho.”

Vistas em uma galeria convencional, as fotografias de Silvester já lançariam luz às contradições entre o registro etnológico e a arte. A questão é reforçada pela contextualização imposta pelo acervo do museu — sobretudo do núcleo ‘Trabalho e Escravidão’ — onde são exibidas ilustrações de Johann Moritz Rugendas. O artista alemão foi o mestre do registro de tipos humanos, e retratou as diversas etnias trazidas do continente africano ao Brasil no século 19, incluindo os povos Cabinda e Mina, de Angola, que também praticavam a pintura corporal.

Hans Silvester/Divulgação

Corpos chegam a confundir-se com a selvagem paisagem

Infelizmente, a vivacidade da obra dos povos do vale do Omo causam uma inevitável melancolia para quem tem conhecimento dos problemas da região, onde muitas tribos entram em guerra constantemente em razão da disputa de terras para o pastoreio de cabras. Outro movimento que parece inevitável é a aproximação com a população das grandes cidades e com os visitantes, possivelmente incentivados pelos retratos do próprio Hans Silvester que correm a internet. Aclamadas por seus trabalhos, algumas tribos já foram cooptadas pela indústria do turismo e passaram a ser procuradas por fotógrafos amadores ávidos por souvenirs, imediatamente postados em redes sociais como Flickr e Instagram.

“Então chegam os 4x4, lá pelas 10h, os nativos estão prontos para recebê-los, exibindo seus acessórios e corpos pintados para a ocasião. Esse show de certa maneira surreal dura até o meio-dia, e então os turistas vão embora e os ‘performers’ são pagos na moeda local... O dinheiro é convertido imediatamente em álcool ou armas, duas mercadorias valiosas. Todo o negócio tem o cheiro de uma tragédia”, lamenta-se Silvester, que vai retornar à tribo de Surma, em julho. “As crianças que eu fotografei agora são jovens. Muitas das garotas estão casadas e vão me mostrar seus bebês”, acredita ele.

Escrito por Márcio Cruz
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