Beleza ou vandalismo

A arte de rua pode até ter conquistado um certo respeito – mas a pichação ainda está bem longe disso. Emilie Brunet conta mais

Lois Stavsky

A arte de rua ganhou moral em São Paulo, a ponto de se tornar motivo para colecionadores e amantes do gênero visitarem a cidade. Galerias de arte se especializaram no tema, e nenhuma viagem a São Paulo é completa sem uma caminhada pelo Beco do Batman, uma pequena rua da Vila Madalena que mais parece uma galeria a céu aberto. Já a pichação – subgênero marginalizado do grafite que é tão característico da cidade – é bem mais polêmica.

Para a maioria da população, a caligrafia em tinta preta não passa de um vandalismo horroroso. Na visão de um pichador, um prédio coberto por esses escritos é algo belo – principalmente se o motivo de tanta beleza for a alcunha do próprio ‘desenhista’. Para eles, beleza e vandalismo são noções discutíveis.

De acordo com seus defensores, a pichação (que vem do verbo ‘pichar’, cobrir de piche) é a voz artística da uma classe mais desfavorecida que prefere ser odiada a ser ignorada. Muitas das tribos que pintam seus nomes nas fachadas (tanto no nível da rua como nas alturas dos grandes edifícios) vêm das favelas da periferia da cidade – ou, como se diz por ali, das “quebradas” –, e deixam sua inconfundível marca para serem lembrados.

Vista como um todo, a pichação que cobre quilômetros e quilômetros da paisagem urbana se transforma em uma gigantesca obra coletiva, cujos pintores têm o objetivo de lutar contra o anonimato e a exclusão social – mas, ainda assim, se escondem. Os pichadores externam de forma intensa e arrebatadora uma angústia urbana profundamente enraizada.

No documentário Pixo, de João Wainer e Roberto T. Oliveira, exibido na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo de 2009, um dos protagonistas diz: “Essa arte é carregada de toda a energia que a metrópole tem. É carregada de tudo – egoísmo, perversidade, desejo pelo natingível, desejo de ser o melhor”.

Origem
Acredita-se que a pichação e seus elementos gráficos, surgidos nos anos 1980, tenham sido influenciados pelos logos das bandas de heavy metal. A inspiração dessas imagens era, quase sempre, a mitologia pagã e o antigo alfabeto rúnico – os estranhos e pontiagudos hieróglifos dos povos nórdicos pré-cristãos.

E como se lê um “picho”? O antropólogo Alexandre Barbosa Pereira, que tem pós-doutorado pela Universidade de São Paulo, andou com pichadores durante quatro anos para pesquisar sobre o assunto. Em artigo publicado em 2010 na revista Lua Nova, ele explica que uma pichação pode contar com todos ou alguns dos seguintes elementos: o símbolo da “grife” (o nome da gangue em caracteres próprios), as iniciais dos autores e o ano de produção.

Mas se as pichações são consideradas repulsivas por muitos, para outros sua ousadia fascina, e até instiga. Em 2008, um grande grupo de pichadores invadiu o Centro Universitário Belas Artes, espalhando-se pelo prédio para pichar paredes e até obras de arte. Logo depois, o grupo entrou na galeria Choque Cultural, em Pinheiros, e pichou as paredes, além de algumas de suas obras, para protestar contra o “marketing, a institucionalização e a domesticação da arte de rua”. Respeitada, a Choque ganhou reputação ao apoiar e fomentar a atividade de dezenas de artistas paulistanos, alguns deles ex-pichadores. Naquele mesmo ano, chegou a vez da Bienal de São Paulo. Durante a ofensiva, uma gangue de cerca de 50 pichadores foi aplaudida por parte do público ao tentar escapar da polícia.

Na Bienal seguinte, em 2010, pichadores foram convidados para participar da mostra e ganharam um espaço próprio. E quando Pixo foi exibido na Fondation Cartier de Paris durante uma exposição de grafites, um dos curadores, arrebatado pelo que tinha visto, se referiu àquilo como “o que precisávamos – algo novo, selvagem e desconhecido”. A elite artística parsiense se encantou com a audácia da pichação, mas talvez ficasse chocada se visse prédios de Paris cobertos de tinta preta.

Confira o trabalho do ex-pichador Cranio no Espaço Chakras. R. Dr. Melo Alves, 294, Jd. Paulista (11 3062-8813). Até 27/11.

Com a palavra: Escobar
“Não acho que eu seja um artista de grafite, não acho que seja um pichador. Nem mesmo acho que seja um artista. Para mim, isso é pura diversão.” O dono da frase tem 20 e poucos anos, estuda na Escola de Belas Artes e é um ex-pichador. Sua refinada assinatura leva meia hora para ser concluída – muito mais tempo que os poucos segundos cheios de adrenalina de que ele dispunha na pichação de rua. Agora, Escobar atua nos domínios da arte de rua mais elaborada, mas seu trabalho ainda traz o DNA do picho: ele pinta sua assinatura com letras pretas monocromáticas – segundo ele, “porque as pessoas não gostam”.

O artista também trabalha com a organização sem fins lucrativos CENPEC, ensinando jovens presidiários em um projeto de design que lhes dá acesso à experiência artística. Nas oficinas, cada participante é estimulado a criar uma face própria – a sua tipologia. Depois, Escobar sai para a rua, picha as imagens de cada estudante em algum muro, fotografa e volta ao presídio para mostrar o resultado.

Escrito por Time Out São Paulo editors
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