São Paulo ocupada: Cia. Pessoal do Faroeste

A Boca do Lixo é fonte de inspiração para a trupe de Paulo Faria. A ocupação dos espaços indesejados da cidade é, para eles, a melhor forma de 'ato político'

Lienio Medeiros
A sede da cia. de teatro fica na Luz e a ordem da casa é acolher


Para uma cidade cheia de contradições, não espanta que uma das regiões mais bonitas de São Paulo seja, ao mesmo tempo, uma das mais decadentes. Durante o dia, incorpora com altivez seu nome – Luz –, enquanto à noite, sua aura mais sombria faz dela sede da Cracolândia desde a década de 1990. Foram muitas as tentativas de revitalização do entorno em um passado recente, seja pela reforma da belíssima Pinacoteca, também na década de 1990, ou mesmo o Centro Cultural Júlio Prestes, sede da Sala São Paulo, na antiga Estação Júlio Prestes, restaurado durante a segunda metade da mesma década e inaugurado com louvor em 1999.

Mas erra quem pensa em um histórico de decadência somente nesse período. A Boca do Lixo, como foi apelidada provavelmente entre os anos de 1920 e 1930, já tinha vocação para a decadência: espécie de Baixo Augusta, era harmoniosa a convivência entre comércio, bares, indústria cultural e prostitutas, e já desprezada pelo poder público da época. É o resgate dessa história ancestral da Luz, que culmina sobretudo na Rua do Triunfo, que a Cia. Pessoal do Faroeste vem fazendo ao longo de seus 15 anos de vida – e estada – no coração da Boca, marco zero da produção cinematográfica de peso na São Paulo dos anos 1950.

“A cia. se chama Faroeste e está em um lugar onde é um faroeste. Este é o princípio do gênero, [de um lugar] onde não há lei, onde há uma ocupação desordenada. Não poderia existir metáfora ou lugar melhor, vendo o histórico de como a gente chegou aqui. E, ao mesmo tempo, estar já é importante para chamar a atenção para tudo”, diz, apaixonado, Paulo Faria, diretor da cia., dramaturgo e ator. Não se trata de uma ocupação assitencialista da área, ele explica, mas de viver “uma história fantástica, que é a história do cinema, ao mesmo tempo em que há esse lado pesado”.

O recorte aqui se dá entre os entornos da Rua do Triunfo, uma vez que tratar da decadência do Centro da cidade como um todo se tornaria uma missão bem mais complexa. Mas, como afirmou o crítico de teatro Sebastião Milaré nos encontros de pesquisa promovidos pelo Pessoal do Faroeste em 2011, “a Boca do Lixo é só um pedacinho, mas esse pedacinho foi tão importante que potencializou tudo o que havia no entorno”. Parte integrante do movimento cultural que habitava a área na década de 1970, Milaré entende que ali “havia uma vontade, mesmo dos cineastas da Boca, de entrar muito no experimentalismo”. Experimentalismo, afinal, é a palavra de ordem do Pessoal do Faroeste.
 

Lienio Medeiros
O diretor, dramaturgo e ator Paulo Faria


O que a cia. teatral vem fazendo até hoje remete a dois períodos marcantes que mostram a força motriz do poder (e do papel) que a arte tem de modificação urbana.
Na década de 1945, a Rua do Triunfo já era reduto de distribuidoras como Warner, Paramount e Universal. Para uma distribuição mais barata, aliás, era por ali, também na Rua General Osório, próximo às estações de trem (Luz e Sorocabana, onde hoje está a Estação Pinacoteca), que elas precisavam se instalar. Foi esse arranjo inicial, ainda no período entre 1920 e 1930, que alavancou o comércio na região e criou um pano de fundo para a produção de cinema mais tarde. De toda a filmografia lançada entre 1960 e 1980 no Brasil, 80% nasceu da Boca do Lixo. De todos os gêneros que surgiram dali, o cinema erótico (a pornochanchada) foi um dos pontos altos –e, para alguns, de queda – da região.

Se avançarmos para os anos 2000, há semelhanças com a ocupação da Praça Roosevelt pela cia. teatral Os Satyros, hoje, reduto cultural de teatro, bares e restaurantes e, também, de puteiros. “Nossa intenção é de envolver a população nessa guerrilha urbana, onde a gente está. É como foi, de uma forma, o que aconteceu na Praça Roosevelt, de como Os Satyros encontraram aquilo e como foi fundamental a presença deles e a articulação de todos os grupos ali”, afirma Faria.

Das pesquisas realizadas pelo grupo, que ocupou três endereços na região até chegar à Sede Luz do Faroeste, na Rua do Triunfo, surgem os temas das peças, como a peça de 2011, Cine Camaleão: Boca do Lixo, estrelado por Mel Lisboa e indicado ao Prêmio Shell em três categorias. Nele, o perfil cultural setentista das pornochanchadas da Boca é contado de maneira bem-humorada.

Em maio, a cia. volta ainda mais no tempo com a peça Homem Não Entra (estreia em 4/5, às 23h; sáb., 23h; dom., 17h. 60 min. Até 18/8. Pague quanto puder) que, ambientada em 1953, retoma o decreto do então prefeito Jânio Quadros de expulsão das prostitutas do Bom Retiro, e que, por isso, migram para... a Rua do Triunfo. Em forma de faroeste – “o primeiro faroeste brasileiro escrito para o teatro”, garante Faria –, a peça tem a missão de aproximar a primeira expulsão oficial higienista a uma mais recente, em 2011, dos usuários do crack.

A ideia, então, é recriar um pólo cultural por meio das cias. de teatro na região? “Tem gente que fala: ‘Ah, vocês gostariam de trazer os outros grupos de teatro’. Não, nós gostaríamos que as produtoras de cinema voltassem. Porque a vocação daqui é o cinema.”

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Escrito por Evelin Fomin
 

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