São Paulo ocupada: Bar Riviera

Novas luzes de néon iluminam uma das esquinas mais icônicas – e negligenciadas –  da cidade. É a volta do histórico bar pelas mãos de Facundo Guerra e Alex Atala

Lienio Medeiros
A fachada do Bar Riviera, que deve reabrir em julho


Se existe algo que não falta em São Paulo são novos bares e restaurantes. Toda semana, há uma enxurrada de inaugurações, mas são raríssimas as novidades que dão o que falar, construindo expectativas crescentes até se tornarem os lugares mais cobiçados da cidade antes mesmo de abrirem as portas.

Com uma capacidade inata de gerar esse tipo de empolgação – e de criar um burburinho que perdura muito tempo depois que a festa de inauguração acaba –, o jovem empreendedor da noite Facundo Guerra é proprietário e co-proprietário de uma série de bares e clubes muito queridos em São Paulo. Seu último projeto é a ressurreição do veterano bar Riviera, com ninguém menos do que o chef-celebridade Alex Atala como sócio. Junto à galeria de arte Pivô, que abriu em uma ala do Copan, prédio de Oscar Niemeyer, em 2012, o Riviera é um dos poucos empreendimentos que misturam o velho e o novo, escavando fragmentos da história paulistana na incessante destruição/construção que transformou a cidade no arquétipo da implacável selva de pedra. Em contraste com outros lugares onde o passado está escrito nas fachadas dos prédios, em São Paulo é preciso cavar um pouco mais fundo para se encontrar peças interessantes.

Localizado em uma das esquinas mais icônicas da cidade (da Avenida Paulista com a Rua da Consolação), o Riviera foi aberto pela primeira vez em 1949, servindo a uma clientela elitizada dos bairros vizinhos Pacaembu e Higienópolis. Mas tais origens logo deram lugar a um perfil mais simples, pois a mudança dos ventos no entorno conspiraram para que baixasse um pouco a crista.

No início dos anos 1970, o projeto do então prefeito Paulo Maluf de canalizar o trânsito da Paulista para um túnel que passava embaixo da avenida levou um trecho da via para o subterrâneo, deixando o Riviera atrás de uma muralha de tráfego e o separando da praça arborizada do outro lado da rua. O Riviera entrou em declínio e por fim, após mais de meio século, fechou em 2006.

Do outro lado da Rua da Consolação, o cinema Belas Artes, que já foi uma das raisons d’être do Riviera, também foi fechado em 2011. Apesar da esperança de que ainda seja reaberto – existe um processo de tombamento na Prefeitura –, por enquanto ele é apenas uma fachada de tapumes em uma quadra movimentada. Com isso, não se trata de uma área muito promissora para um novo bar; até mesmo o prédio que abriga o Riviera, o Anchieta, de 1941 e uma das primeiras construções modernistas da cidade, é do tipo pelo qual você pode passar dezenas de vezes sem perceber a beleza elegante e arrojada ou a parede de tijolos de vidro e o pé-direito duplo no térreo, onde o bar renasce devagarinho.

Ainda assim, a iminente reencarnação do Riviera desperta curiosidade nos paulistanos, na maioria das vezes seguida por um ‘ah’ satisfeito quando de dão conta de que Guerra é quem está por trás dele. O empreendedor da noite é respeitado por ter sido o primeiro a abrir um clube na dilapidada Rua Augusta, na época mais conhecida pelos inferninhos do que pelas noites de rock’n’roll que rolam por lá hoje em dia. A rua, aliás, já teve ciclos e mais ciclos de altos e baixos na história da cidade. A abertura da casa de Guerra, o Vegas, em 2006, foi essencial para engatilhar a rápida revitalização do chamado Baixo Augusta. Uma onda igualmente rápida de investimentos imobiliários fez surgir diversos prédios residenciais em terrenos que antes abrigavam estacionamentos e casas de strip e levou, no ano passado, ao fechamento do Vegas, vítima dos aluguéis inflacionados.

Os bares Volt e Z Carniceria são outros dois negócios do empresário ali perto, assim como o clube Lions, no Centro, a casa noturna predominantemente gay Yacht, no Bixiga, e o Cine Joia, casa de shows que ele abriu em 2011, na Liberdade. A transformação do Cine Joia – um cinema art déco dos anos 1950 – em uma das casas de show com melhor programação na cidade, é marca registrada do estilo de Guerra: o empreendedor de origem argentina tem um talento para misturar o novo com aspectos bem escolhidos do passado. Ele decorou o bar Volt com placas néon de bordéis do Baixo Augusta. “Quando começo um novo negócio, não tenho a pretensão de revitalizar a área”, disse ele quando nos encontramos em uma tarde de março em um Riviera bastante empoeirado – o interior está sendo totalmente reprojetado e reconstruído. “Seria arrogância de minha parte pressupor que estou fazendo isso pelo bem da cidade. Faço isso pelo meu próprio bem financeiro; e, se a cidade se beneficiar disso de alguma maneira, ótimo.”

A cidade frequentemente se beneficia e, no caso do Riviera, muito além de reanimar a famosa esquina hoje meio sem graça, há esperança até mesmo de que possa ajudar na campanha pela reabertura do Cine Belas Artes. Os dois lugares estão intimamente ligados na consciência coletiva paulistana e, na época do fechamento do Belas Artes, quando milhares de assinaturas foram colhidas em petições pela sua manutenção, muito se falou sobre os velhos tempos e sobre sessões de cinema seguidas por drinques no Riviera.

Divulgação
Facundo Guerra, o empresário que ajudou a revitalizar o Baixo Augusta

 

“O Riviera tornou-se popular junto ao público do cinema nos anos 1970”, afirma Guerra. O bar era frequentado por tipos artísticos, inclusive cineastas e músicos da MPB, tais como Chico Buarque e Elis Regina, além de universitários da USP, da PUC e do Mackenzie. “Ao longo desses anos, ele sempre foi um eixo central para a intelligentsia paulistana”, conta Guerra. Durante a ditadura militar que começou em 1964, os radicais se reuniam no Riviera para conspirar – o bar tinha um famoso balcão vermelho, que Guerra e Atala estão recriando, mas em novo formato (curvo e orgânico, que lembra o aspecto comunitário do Bar Balcão). “Este lugar era um ponto de encontro da resistência paulistana”, diz Guerra, cujo pai era militante comunista na época. “Vamos prestar uma homenagem ao antigo Riviera.” Ele também planeja uma parede de livros acima do balcão: “Livros marxistas, do tipo que você jamais poderia trazer aqui na década de 1960.”

Enquanto tentamos passar pelo poeirento chão de concreto do que em breve será o bar principal, pisando entre sacos de areia e baldes de cimento, Guerra mostra o lugar nos fundos reservado para um elevador que levará a comida de Atala da cozinha, no andar de cima, para o andar de baixo. No piso superior, mesas e cadeiras viram-se para um pequeno palco. “Principalmente para jazz, mas também voz e violão ou uma bateria – talvez até alguém fazendo uma leitura”, explica.

E que tipo de público eles esperam receber quando o lugar abrir? “Não sei. É muito difícil prever quem um lugar vai atrair – você pode planejar para um determinado tipo de público, mas isso sempre acaba mudando. Pode tentar agradar os outros, mas, dessa forma, geralmente acaba não agradando ninguém. Tem de fazer um lugar que você mesmo adoraria e esperar que os outros compartilhem seu gosto. Até agora, isso funcionou – encontrei muitas pessoas que gostam do mesmo tipo de coisa que eu. Para o Riviera, Atala e eu estamos fazendo o tipo de bar que sabemos que nós vamos gostar.”

Essa capacidade de acertar em cheio é um dos segredos de seu sucesso. Outro, que o ajuda a escolher os prédios e locais mais interessantes para suas casas, é a paixão genuína pelo passado de São Paulo e, mais importante, por seu presente. “Não estamos tentando resgatar o Riviera para recriar algo que já acabou, de outra época. Não se trata de nostalgia, de criar um bar vintage. Trata-se de se inspirar no passado, respeitando o que havia de mais importante no Riviera, e projetar aspectos desse passado no futuro.”

Ele segue falando sobre a história do bar, seus antigos donos e funcionários e as personalidades que o frequentavam. “Você precisa encontrar lugares com os quais tem uma relação, uma afinidade”, diz. “Para mim, isso é parte de uma estratégia de negócios. Você tem de pensar em uma narrativa quando está abrindo um novo bar, criar uma história para ele. Por melhor que sejam seus drinques, se o lugar não se conectar com as pessoas – se, de alguma forma, não manifestar uma maneira de ver o mundo –, então as pessoas não conseguirão se relacionar com ele.” Guerra ataca a onda de bares de estilo carioca muito parecidos uns com os outros que enchem a Vila Madalena. “Eles são uma praga aqui em São Paulo. Por que na Vila Madalena nenhum bar tem personalidade? Porque todos são variações do tema ‘boteco carioca’ ou ‘boteco de jogador de futebol’.”

Ele explica também por que fazer do Riviera um bar de jazz. “Me perguntaram se queria criar um novo clube e eu disse que não – já fiz bastante disso, e São Paulo não precisa de mais um clube. Mas não há muitos clubes de jazz – tem o Bourbon, o Teta – e acho que há espaço para um clube pequeno e realmente bom de jazz, com comida barata – por volta de R$ 40.” Atala está criando um menu que traz algumas comidas servidas no antigo Riviera, e a ideia é abrir todos os dias para o almoço e funcionar até as 2h, com música ao vivo no andar de cima nas noites de quinta, sexta e sábado.

Quando saímos do bar para o trânsito barulhento da Consolação, Guerra analisa: “São Paulo não tem cartão postal”. “O único que temos é a Paulista – que já foi cheia de teatros, cinemas, bares e restaurantes, e agora é uma rua de bancos! Mas não é uma cidade feia. Ela tem camadas que se sobrepõem, um acúmulo de coisas que a tornam bonita. Mas acho que, para realmente gostar de São Paulo, você tem de superar seus preconceitos de beleza, dos cânones do que supostamente é bonito. Você tem de ter experiência e um olhar calejado.”

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Escrito por Claire Rigby
 

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