Música para o estômago

 Trilha sonora para realçar o seu prazer gastronômico

Mauro Holanda

"Jantar com música é uma ofensa tanto para o cozinheiro quanto para o violinista." A paciência do escritor G. K. Chesterton certamente havia chegado ao limite, depois de tantos jantares acompanhados por música. O gosto musical pode ter mudado desde os dias de Chesterton mas, goste-se ou não, o costume dos restaurantes de servir as refeições com música ao fundo continua inalterado. E, às vezes, nas combinações mais incomuns.   

Aqui em São Paulo, já comemos goulash húngaro ouvindo versões reggae dos clássicos de Simon and Garfunkel, e curry vegetariano ao som do Noturno Opus 9, nº2, de Chopin. Mas há algum conhecimento científico a indicar que a música pode realçar o prazer dos alimentos? 

 

O chef britânico Heston Blumenthal decidiu provar que sim, quando, em 2007, introduziu um prato ultramoderno à base de frutos do mar no cardápio de seu restaurante contemporâneo, o Fat Duck; enquanto comiam, os clientes ouviam sons do mar em um iPod. Compare essa experiência com a vivida em restaurantes onde, no máximo, colocarão um CD Greatest Hits qualquer, torcendo para os clientes não reclamarem.

 

Playlist profissional
O DJ Felipe Venâncio, contudo, trata as trilhas sonoras de restaurantes de forma muito mais inovadora e profissional; hoje, ele provê as trilhas de oito estabelecimentos espalhados pela cidade, incluindo o Pirajá, o Maní e Le Buteque. "Hoje, qualquer um pode elaborar a trilha sonora para o restaurante do tio", diz. "Mas a questão é: dá certo? Para mim, é preciso haver sempre um conceito por trás. No Pirajá, a música é toda de compositores cariocas. No Maní, com a chef Helena Rizzo, apenas cantoras que estão em destaque no momento, como Mariana Aydar e Tulipa Ruiz. Todos os restaurantes franceses optam por Edith Piaf e os clássicos, mas, no Le Buteque, tento refletir a mistura de raças dos bairros parisienses, tocando sons parisienses contemporâneos", diz o DJ. 

 

No Le Marais Bistrot, no Itaim Bibi, a trilha sonora surgiu de modo um pouco mais natural. Ali, você pode ouvir sons raros da vasta coleção de vinis do músico Ed Motta, velho amigo do chef Wagner Resende.

 

"Ele tem 20 mil vinis em casa, então nós tivemos esta ideia: ele faria nossa trilha sonora, uma para o almoço e outra para o jantar", diz Wagner. "Degustar um foie gras ouvindo Ozzy Osborne não dá certo, mas uma música de Michel Legrand cai perfeitamente bem com moules marinières et frites e uma boa taça de Louis Latour." Magnifique!

 

Sintonia fina
No L’Entrecôte d’Olivier, bistrô localizado nos Jardins, o chef Olivier Anquier mantém a simplicidade: apenas liga o rádio – uma rádio francesa, é claro. Ele sintoniza a brilhante Radio France, FIP, que toca de Seu Jorge a Orquestra Filarmônica da BBC, além de oferecer boletins ao vivo sobre o trânsito em Paris.

 

O restaurateur Rocco Bidlovski, que já foi músico (ex-baterista da banda de pop rock Tokyo), adora selecionar as canções para a trilha do restaurante do qual é sócio, o Falafa, que serve comida árabe. "Quero que seja universal, para que velhinhas e crianças se divirtam", diz Bidlovski. "Adoro rock, mas a maioria das músicas não tem apelo para todas as idades. James Brown é muito agitado, você também não pode tocar muito jazz, com solos de trompete e bateria", lamenta-se. 

 

Então, qual o som perfeito para acompanhar o falafel? "Eu diria que Mulatu Astatke (lenda do jazz etíope)", afirma Bidlovski. "Babaganoush tem mais a ver com Augustus Pablo e seu Rockers Meet King Tubby In A Fire House. E quanto a kneidl e Bob Marley? É uma viagem, cara."

 

Em São Paulo, não faltam casas de show e boates onde é possível encontrar algo para comer. Mas em nenhum lugar você verá uma combinação entre gastronomia e música ao vivo tão peculiar quanto no restaurante vegetariano Madhurya. Lucas e Eric, os filhos do proprietário, Gita, enchem a casa com os sons do piano, às segundas, quintas e sextas, durante o almoço por quilo. "O lugar fica mais agradável com música ao vivo", diz Gita. "Lucas e Eric têm formação clássica e eu amo música clássica, então deixo que toquem o que quiserem. A maioria das pessoas adora, mas há um espaço lá fora, para quem não gosta."

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O Falafa fica na Rua Padre João Manuel, 730, Jardim Paulista (3062 7882, falafa.com.br). 

O L’Entrecôte d’Olivier fica na Rua Doutor Mário Ferraz, 17, Jardim Europa (3034 5324, bistroentrecote.com.br

O Maní fica na Rua Joaquim Antunes, 210, Jardim Paulista (3062 7458, manimanioca.com.br).

O Pirajá fica na Avenida Brigadeiro Faria Lima, 64, Pinheiros (3815 6881, piraja.com.br).

O Le Buteque fica na Rua Haddock Lobo, 1416, Jardim Paulista 

(3083 3737, lebuteque.com.br).

O Le Marais Bistrot fica na Rua Jerônimo da Veiga, 30, Itaim Bibi (3071 2873, lemaraisbitrot.com.br). 

O Madhurya fica na Rua Mourato Coelho 981, Vila Madalena 

(3037 0489)

Escrito por Gibby Zobel
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