O melhor do burlesco

Em ascensão em São Paulo, o mais sensual dos gêneros teatrais espalha plumas, emoções e babados para plateias atentas. Chiara Rimoldi mergulha nesse universo para descobrir quem é que essa arte a São Paulo

 

Gabriel Lindoso/Divulgação

Quando as luzes se apagam e a plateia fica em silêncio, aparece um gorila, movendo-se desajeitadamente entre o público ao som de rockabilly. A fantasia é retirada revelando uma mulher misteriosa: o gorila não é ninguém menos que Mademoiselle Blanche, a anfitriã do TrixMix. A fórmula bem sucedida desse cabaré, com um programa constantemente renovado de atrações, ajudou a torná-lo um dos principais fóruns de artistas burlescos, como Paula Miessa, dançarina profissional que troca o tutu (saia) de bailarina por trajes mais ousados para levar ao palco um striptease ágil e furioso; e como Ziza Bisola, que une habilidades acrobáticas a um visual sensual de pin-up.

Sensual e audacioso, o TrixMix está entre os diversos shows burlescos e de cabaré inspirados em clubes famosos, como o La Clique (lacliquelondon.com) de Londres e o Starshine Burlesque (starshineburlesque.com) de Nova York. Recuperando o tempo perdido com extrema velocidade, trupes de artistas agora estão trazendo o burlesco a São Paulo, disseminando ainda mais essa já conhecida forma artística.

O burlesco tem um sabor europeu, desde seu nome francês até seu conceito. É nada menos que o filho bastardo da Commedia Dell'Arte, um gênero de teatro revolucionário que surgiu na Itália em 1560 e se espalhou pela Europa, utilizando os ventos de descontentamento geral que caracterizou aquela época. Além de uma arena pública e carnavalesca onde a classe dominante podia ser simbolicamente riducularizada, o burlesco também era um palco onde as personagens femininas eram interpretadas por mulheres de verdade, e não por homens montados.

O conceito não é completamente novo no Brasil: a Belle Epoque do país (1889-1922) é relativamente recente. O Café Uranus, aberto em 2001, é inspirado nos cabarés de São Paulo dos anos 1920 e 30 e apresenta o musical Tango Mulheres, uma história picante de paixão em que os atores interagem com a plateia.

Raquel Rosmaninho, uma das estrelas do cabaré em São Paulo, lançou o TrixMix, talvez o show mais conhecido da cidade, em 2007. A inspiração veio depois de um período em que ela morou e trabalhou em Londres, em meio ao mundo do circo.

Acrobata, assim como seu marido e co-fundador do TrixMix, Emiliano Pedro, Rosmaninho conseguiu aplicar a fórmula testada e aprovada dos cabarés da França, como o Moulin Rouge e o Folies-Bergère, ao gosto moderno. O resultado é uma mistura de elementos de circo, música ao vivo, dança, humor, stand-up e, claro, do burlesco. "Nosso show tem um forte componente artístico e brincalhão. O burlesco é um conceito novo no Brasil – o meio não é nada parecido com os de Londres ou Nova York", diz Rosmaninho. Sensual e sexual, o elemento burlesco é um importante ingrediente da fórmula do TrixMix – e é um elemento que Rosmaninho sempre precisa explicar.

"A palavra 'cabaré' em si era um tabu aqui no Brasil", explica ela. "Porque todo mundo pensa instantaneamente em bordel – algo pobre, com prostitutas nuas. Essa garotas têm sede de fazer algo sedutor, mas não querem fazer isso em uma casa de strip."

"O teatro burlesco me deixa ser quem eu quiser ser – posso fazer qualquer papel", revela Cheesecake, uma das artistas burlescas mais famosas de São Paulo. "É justamente por isso que minha alma de artista estava sedenta nos últimos anos, e é por isso que eu me dooei completamente a esta arte." Atualmente atuando no At Nine Bar, a campeã de dança do ventre é uma mistura de Mata Hari e Sherazade, mas sua performance vai além do clichê de emprestar movimentos e roupas de figuras femininas famosas. Ela não se perde na personagem. Pelo contrário, ela se encontra no palco: "Você tem que explorar seu corpo, seus movimentos e sua feminilidade sem cair na vulgaridade." De acordo com Rosmaninho, Cheesecake é uma das melhores artistas burlescas da cidade: "Cheesecake precisa de um espaço no qual possa passar dos limites, e nós demos esse espaço a ela. Ela é uma grande provocadora; a plateia fica louca quando ela entra no palco."

Outra artista burlesca de destaque na cidade, Karina Raquel, ou Fascinatrix, se define como uma "nova pin-up", uma versão tatuada e brasileira de Dita Von Teese. Durante muito tempo no Drops Bar, que ficava dentro de um casarão dos anos 1930 que, infelizmente, fechou, a Fascinatrix está procurando um novo lugar para se apresentar. Sobre Fascinatrix, Rosmaninho afirma: "Ela fazia um show de strip em um espaço muito pequeno no Drops, bem perto da plateia. Isso não é fácil. Você precisa ser corajosa e ter total controle da situação, e ela faz isso com classe e humor."

Diferentemente de Cheesecake, que limita sua personagem ao palco e mantém sua identidade secreta, Fascinatrix está sempre em performance, continuando glamurosamente no papel mesmo quando está fora do palco. "Já me pediram várias vezes para posar para fotos como pin-up", diz. "Mas não me vejo como uma imagem estática. Sou uma artista burlesca: tenho um ato teatral." E acrescenta: "A coisa mais engraçada é perceber como as mulheres gostam do meu show. Mesmo sendo feito para o público masculino, minhas verdadeiras fãs são as mulheres, que perguntam onde compro minha lingerie e que observam meus movimentos com atenção, talvez para tentar fazê-los em casa."

Escrito por Chiara Rimoldi
 

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