Time Out São Paulo

Gerald Thomas: entrevista

 O  enfant terrible  carioca do teatro brasileiro esteve na cidade em julho de 2011 com sua produção inusitada, Gargolios

O diretor de teatro brasileiro vanguardista, Gerald Thomas, esteve de volta ao lar em julho, apresentando sua inusitada peça Gargolios no SESC Vila Mariana. Com referências visuais aos ataques de 11/9, um elenco vestido como super-heróis, uma mulher nua suspensa e sangue pingando no palco, tudo ao som do próprio Thomas, que toca baixo no palco, a peça pode ser descrita como uma montanha-russa e deixou o público paulistano algo entre chocado, maravilhado e completamente confuso. Kathleen McCaul bateu um papo com o diretor nos bastidores depois da apresentação.

TO Eu achei a peça difícil de entender.
GT “Eu não entendo, senhor, eu não entendo. Porque se eu tivesse entendido, eu diria eu entendo, senhor.” Você tem um refrão inteirinho aí, concebido pelo [baixista do Led Zeppelin] John Paul Jones sobre o fato de você não entender.
Então não importa se o público não entendeu?
GT Claro que não. Não é teatro linear com um começo, meio e fim. Quem quer qualquer coisa, recebe qualquer coisa. Eu não tenho muita vontade de discutir a virgindade da minha filha ou o preço do leite. Se [o público] conseguir fisgar alguma coisa disso, quer seja um peixinho dourado, uma truta ou peixe frito com batatas fritas, então está tudo bem.
TO A reação da plateia em São Paulo foi ótima - aplaudiram de pé.
GT Eu recebo aplausos de pé em São Paulo há trinta anos. Eu fui vaiado no Rio em 2003 e tive que mostrar minha bunda. Fui preso por isso.
TO Você acha que os públicos de São Paulo e do Rio são diferentes?
GT O Rio é muito esnobe, como Nova Iorque e Londres, com públicos cínicos. São Paulo tem uma vontade de devorar cultura. O Rio ainda acha que é a capital do Brasil - já não é há cinquenta, sessenta anos.
TO Você largou São Paulo e o teatro há alguns anos. Por que?
GT Eu já tinha me saciado do teatro. Eu montei 85 peças ao redor do mundo, em 15 países. Eu trabalhei com o melhor e com o pior e só queria parar.
TO O que incentivou a volta ao teatro?
GT Vício. Puro vício. Eu nunca tive intenção de continuar, mas, por algum motivo, o teatro, e as artes performáticas em geral, são viciantes e eu não consegui me manter longe disso. Então eu formei a Companhia London Dry Opera.
TO Como as pessoas reagem a você no Brasil?
GT Quando você se torna um mito - como eu sou no Brasil - as pessoas não te deixam em paz. Elas te abordam em restaurantes e se acham no direito de fazer qualquer pergunta - as mais impróprias, e pessoais perguntas que eles poderiam fazer.
TO Qual a pergunta mais pessoal que já te fizeram?
GT “Qual o tamanho do seu pinto?”. Tudo que você quer é um jantar privado com uma pessoa, mas você entende que isso faz parte do trato. Se você estiver ali, é bem possível que seja fotografado e apareça em colunas sociais no dia seguinte. Graças a Deus não é assim em Nova Iorque ou Londres, onde Philip Glass pode andar pela rua e ninguém dar a mínima. A gente anda de metrô e ninguém liga. Eu adoro isso, eu realmente adoro isso.
TO Muitas das suas experiências do 11/9 lhe ajudaram a escrever essa peça. Você acha que o público entende essas referências?
GT Essa peça não foi feita para o Brasil. Não é uma peça customizada. Mas essa é a nossa realidade em Nova Iorque e Londres - nós vivemos em um mundo de terror. Eu estive lá, no ground zero, por 21 dias. Eu não lembro o que eu vi ao vivo ou o que eu vi 100 milhões de vezes repetidas na TV, em diferentes ângulos de diferentes câmeras. Eu não lembro, mas eu sei que tomei remédios contra ansiedade e reguladores de humor por dez anos por causa do transtorno de estresse pós-traumático que eu adquiri.
TO Tem muita violência e raiva na peça. Escrevê-la foi uma experiência catártica? Ajudou você a lidar com o que você testemunhou?
GT Eu tenho raiva da juventude de hoje, com seus iPods e iPads, completamente anestesiados para todo o resto. Claro que eu tenho um iPod e um iPad, eu tenho i-tudo, mas eu não me deixo anestesiar por eles. Eu dou uma olhada. Sou viciado em notícias. Eu sintonizo a CNN 24 horas por dia. Eu fico indignado com o quão pouco as pessoas ligam para o que está acontecendo. No Brasil, ninguém sabe o que está acontecendo nas ruas de Damasco. Eu entendo que o Brasil consome a si mesmo, consome suas telenovelas. Brasileiros se importam com o Brasil. Brasileiros se interessam pela cultura pop brasileira.
TO Por que você acha que é tão popular lá, então?
GT Por que eu me destaco, só por isso. Eles também respeitam o fato de que há um brasileiro lá fora representando o Brasil no mundo moderno. Eu tenho muito orgulho disso também.
TO Você gostaria de dizer mais alguma coisa para a Time Out São Paulo?
GT Eu não sabia que existia uma Time Out São Paulo. Eu irei à banca para comprar uma.

Escrito por Kathleen McCaul
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