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Contexto

Construindo a nação. Um caminho difícil

Um dos programas de maior audiência da TV argentina foi uma série histórica chamada Algo habrán hecho (Alguma coisa deve ter feita). Com centenas de figurantes com bigodes falsos e diálogos tão breves como “Majestade, por favor fuja imediatamente”, mostrou ser uma ampla varredura da história do país, desmascarando mitos construídos ao longo do caminho. O cartaz do programa dizia: “Lhes deram praças, catedrais, palácios e universidades. Eles queriam um país.”

Esta é a síntese de como a maioria dos porteños – como são conhecidos os residentes de Buenos Aires – se sente em relação à cidade e, por extensão, à nação. Orgulhosos do que conseguiram, eles se perguntam, face aos recursos humanos e naturais que têm à disposição, por que não conseguiram mais. E se isto não aconteceu até hoje, quando será?

Buenos Aires hoje

Buenos Aires é um estouro. O que poderia sair errado?

A “ressurreição” de Diego Maradona foi a notícia de 2005. Graças a uma operação de redução do estômago, ele perdeu cerca de 50 quilos, começou a apresentar um talk-show e tornou-se vice-presidente de seu amado time de futebol: Boca Juniors. Mais inesperadamente ainda, o filho favorito da Argentina virou uma espécie de porta-voz do movimento político anti-Washington que atualmente varre a América Latina: desdenhou George W. Bush e outros com uma série de aparições em novembro de 2005 na Reunião de Cúpula das Américas, realizada na cidade argentina de Mar del Plata.

Os especialistas rapidamente estabeleceram analogias entre a dramática guinada de Don Diego e a da sua nação. Cinco anos antes, o prognóstico para ambos era sombrio: o sobrepeso de Maradona aliava-se a outros problemas de saúde, causados por seus supostos “hábitos de reabastecimento”, enquanto o país sofria a pior crise econômica de sua história. Tumultos em Buenos Aires eram mostrados pelas TVs de todo o mundo e, à medida que a moeda caía, parecia que todos choravam pela Argentina.

E ainda é assim. Nas últimas semanas de 2005, enquanto Maradona era coroado a Figura do Ano pelo Clarín – o maior jornal do país – pelos elevado índices de audiência do programa de TV La Noche del 10 (A noite do Número 10 – talk show em que Diego exaltava convidados como Fidel Castro, Robbie Williams e Pelé), o presidente Néstor Kirchner preparava a quitação da dívida nacional com o FMI, de 9,8 bilhões de dólares.

A mídia internacional que, apenas três anos antes, havia setenciado que a Argentina estava fora de questão, como qualquer outro caso perdido do Terceiro Mundo, ficou estarrecida.

A recuperação do “menino de ouro” foi incrível. Totalmente diferente foi a maneira como esta golpeada nação e sua dinâmica capital conseguiram sair tão rapidamente da lama. Mas uma coisa é intrigante: será que realmente saiu? Vale lembrar que Maradona voltou a adoecer no início de 2007 e a inflação voltou a subir.
endo remodeladas com escritórios modernos e moradias luxuosas.

Futebol

Gooooooooooooooooooooooooooooool!

Dizem que o amor dos porteños pelo futebol parece religião. Na verdade, ele é muito mais que isso. Nesta secular capital deste cada vez mais secular país, você verá mais devoção cega em um jogo de futebol do que em uma missa. Manter a fé é um compromisso sério.

O cidadão comum nem escolhe o time de futebol para o qual vai torcer. Nascido torcedor do time da família, espera-se dele ou dela que seja fiel desde o berço até a tumba, para o bem ou para o mal. Um adolescente precisa ser muito corajoso para dizer ao pai torcedor do River: “Acho que agora vou torcer pelo Boca.” Numa cidade liberal e agradável como Buenos Aires, trocar de sexo pode ser menos traumático do que trocar de time.

E provavelmente menos comum. O hincha (torcedor) que troca um time eterno perdedor por outro passa a ter status de pária por toda a vida. Tal decisão bateria de frente com o bom senso e a razão – tudo bem para Voltaire, mas deplorável para um verdadeiro fã de futebol. Lealdade, sentido de tribo e, acima de tudo, uma paixão arrasadora: estes são os valores que regem a cultura argentina do futebol.

Buenos Aires literária

Livros estão por toda parte em Buenos Aires: nas muitas livrarias da cidade, nas prateleiras dos supermercados, nas mãos da pessoa que viaja a seu lado no Subte (metrô).

É uma cidade de gráficas e editoras, de círculos literários e leituras públicas, de poetas rabiscando em cima de seus cafés cortados (pingados), de edições muito antigas dos Contos Escolhidos de Kafka lado a lado com a Horny Housewives (Donas-de-casa safadas) do mês nas bancas do centro.

Um ditado diz que há mais escritores do que pessoas em Buenos Aires e, em uma cidade onde todos têm algo a dizer, não surpreende que muito disso tenha sido publicado.

Há apenas alguns autores mundialmente famosos na capital argentina atualmente, mas também não há mais o boom literário latinoamericano dos anos 1960. Ainda assim, novos autores surgem o tempo todo, com romances, livros sobre a identidade argentina, manuais de auto-ajuda e contos – este último um gênero que os escritores argentinos tomaram para si.

Mas você pode entrar nos textos inspiradores da cidade, no gênero que quiser. Os primeiros trabalhos foram cartas e relatos de viagens. Ulderico Schmidt (1525-81), um marinheiro que chegara com Pedro de Mendoza em 1536, fez os primeiros relatos sobre uma nova cidade… “Bonas Aeres”, ou, em alemão, “Guter Wind”. Desde então, os viajantes têm contribuído regularmente com a idéia que os estrangeiros fazem de Buenos Aires e dos argentinos, passando por Charles Darwin, Graham Greene, VS Naipaul, Bruce Chatwin e Paul Theroux. Mas é nos poemas populares, peças e contos que se podem encontrar histórias de cores intensas e mais complexidade.

Escrito por Time Out Viagem editors
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